Novos pedidos de demissão não comovem governo
Ministério Público, Igreja Católica, Assembléia Legislativa e Tribunal de Justiça não conseguem pôr fim a impasse entre médicos e governo
Carla Serqueira
Gazeta de Alagoas
A crise na saúde se alastra a cada dia. Sem diálogo, governo e médicos seguem na direção contrária, longe de um acordo. Nem negociam mais. A greve já dura 74 dias e os pedidos de exoneração aumentam a cada semana. Além dos 160 já protocolados na Secretaria Estadual de Gestão Pública, mais 100 devem ser entregues amanhã de manhã.
Segundo o procurador-geral do Estado, Mário Jorge Uchôa, cada pedido é “automaticamente” transformado em processo administrativo disciplinar contra o médico que quer deixar o cargo. “A greve é ilegal, por isso processamos”, afirma, dizendo que o médico que responde a processo não pode ser exonerado e sim, demitido por justa causa. “E quem é demitido não pode participar de concurso público por cinco anos”, lembra.
Em solidariedade aos médicos em greve, que reivindicam 50% de reajuste salarial, mas só receberam proposta de 5% do governo, os profissionais do Programa Saúde da Família (PSF) começaram, ontem, paralisação de 48 horas, no Centro de Maceió, realizando atendimento gratuito e colhendo assinaturas para encaminhar denúncia ao Ministério Público Estadual. São 752 equipes que reclamam da falta de estrutura nos 102 municípios.
“Temos denúncia de que equipamentos usados em exames de citologia são lavados em açudes. Faltam macas, remédios, materiais de limpeza. O Estado não está repassando o dinheiro que é obrigado a repassar”, diz o diretor da Sociedade Alagoana de Médicos de Família e Comunidade, Danyel Alves, frisando que o governo tem que repassar 12% de seu orçamento para Saúde. “Mas isso não ocorre”, afirma.
O presidente do Sindicato dos Médicos, Wellington Galvão responsabiliza o governador Teotônio Vilela Filho pelas possíveis mortes que venham ocorrer por falta de médicos nos hospitais. “A impressão é que o Estado está apostando no caos”, disse.
O procurador-geral de Justiça, Coroacy Fonseca, há algumas semanas, estava à frente das negociações com o governo, mas não avançou. Líder da Igreja Católica em Alagoas, dom Antônio Muniz também foi acionado para intervir, assim como o presidente do Tribunal de Justiça, José Holanda Ferreira, e da Assembléia Legislativa, Antônio Albuquerque, mas não houve acordo. “O deputado Antônio Albuquerque disse que se reuniria com o governador domingo passado, mas não deu retorno”, contou Galvão.
A pediatra Margareth Lessa, do posto de Saúde Denilma Bulhões, preferiu pedir exoneração. “Se ele (Adriano Soares, secretário de Gestão Pública) não aceitar a nossa exoneração, terá que rasgar a Constituição Federal. Não sou obrigada a trabalhar onde não sou respeitada”.
Hoje à tarde, os médicos realizam atendimento no Benedito Bentes, à noite fazem assembléia e amanhã estarão no Mutange. No próximo dia 17, protestam em frente à Unidade de Emergência, que ficará sem neurocirurgiões e hematologistas.